Conceitos

DLMS/COSEM: o protocolo IEC 62056 para medidores inteligentes — referência técnica

27 de maio de 2026·6 min leitura

O que é DLMS/COSEM?

DLMS (Device Language Message Specification) é o protocolo de comunicação, e COSEM (Companion Specification for Energy Metering) define o modelo de objetos — juntos formam o padrão IEC 62056, mantido pela DLMS User Association. Foi criado para resolver um problema real: cada fabricante de medidores usava seu próprio protocolo proprietário, obrigando as utilities a manter integrações separadas para cada modelo. O DLMS/COSEM padronizou como os medidores publicam seus dados usando objetos COSEM identificados por códigos OBIS, e é hoje o protocolo obrigatório em mercados de energia regulados da Europa, América Latina e grande parte da Ásia.

O cabo RS485 é apenas o transporte físico — os bits que trafegam por ele não significam nada sem um protocolo que os interprete. Na medição inteligente (AMI), esse protocolo é quase sempre DLMS/COSEM: o padrão aberto que define como um medidor publica seus registros de energia, demanda, qualidade e eventos, e como um sistema central os consulta. Este artigo cobre o modelo conceitual; se você está procurando a implementação concreta por medidor, pule para o guia complementar ao final.

O que é DLMS/COSEM?

A sigla tem duas partes que vale separar:

  • COSEM (Companion Specification for Energy Metering, IEC 62056-6) é o modelo de objetos: define que um medidor expõe «registros» tipados (Energy, Demand, Clock, Load Profile, Disconnect Control, etc.), cada um com atributos e métodos.
  • DLMS (Device Language Message Specification, IEC 62056-5-3) é o protocolo de mensagens usado para ler e escrever esses objetos sobre um link serial (RS485, óptico) ou IP.

Na prática, «falar DLMS/COSEM com um medidor» significa: abrir uma sessão autenticada, solicitar o atributo de um objeto identificado por um código OBIS e receber seu valor com a unidade correta.

As camadas do stack

DLMS/COSEM não existe sozinho. Em um medidor serial típico, o stack se parece assim, de cima para baixo:

CamadaComponentePapel
AplicaçãoCOSEMModelo de objetos: registros, perfis, métodos
MensagensDLMS / xDLMS (APDUs)Get, Set, Action, Event Notification
EnlaceHDLC (IEC 62056-46)Quadros com endereçamento, controle de fluxo e CRC
FísicoRS485 / RS232 / óptico IEC 62056-21Níveis elétricos, baud rate, paridade

Sobre IP, o stack é similar, mas substitui o HDLC por uma versão encapsulada (DLMS/COSEM wrapper IEC 62056-47) que trafega em TCP. A camada de aplicação COSEM é idêntica — isso permite que as mesmas Plataformas AMI se comuniquem com medidores seriais e medidores IP sem alterar o modelo de objetos.

O sistema de códigos OBIS

Cada registro físico do medidor tem um código OBIS (Object Identification System) de 6 números separados por pontos, por exemplo 1.0.1.8.0.255 = energia ativa importada total. Esse sistema permite que as Plataformas AMI interroguem medidores de fabricantes distintos sem código específico para cada um — basta conhecer o OBIS do registro que se deseja ler.

Código OBISRegistro
1.0.1.8.0.255Energia ativa importada total (kWh)
1.0.2.8.0.255Energia ativa exportada total (kWh)
1.0.32.7.0.255Tensão instantânea fase L1 (V)
1.0.99.1.0.255Load Profile 1 — perfil de demanda capturado
0.0.96.1.0.255Número de série do medidor

Segurança: autenticação e criptografia

DLMS/COSEM define três níveis de segurança de aplicação, todos negociados ao abrir a sessão:

  • Lowest Level Security (LLS) — sem autenticação. Usado apenas para portas ópticas em leitura local.
  • Low Level Security (LLS com senha) — senha de 8 caracteres no handshake. Suficiente para medidores em mercados não regulados.
  • High Level Security (HLS) — autenticação mútua com desafio-resposta. A variante HLS5 usa AES-GCM 128/256 e assina com GMAC por mensagem, o que permite garantir autenticidade e integridade de cada APDU. É a opção exigida pela maioria das distribuidoras reguladas hoje.

O gateway negocia o nível mais alto que o medidor suporta e mantém as chaves protegidas em seu próprio armazenamento — nunca em texto simples nas Plataformas AMI.

Por que DLMS/COSEM é o padrão AMI na LATAM

As normas locais (CREG na Colômbia, ANEEL no Brasil, CFE no México) alinharam seus requisitos AMI à família IEC 62056. Isso significa que qualquer gateway ou sistema central que aspire a operar no mercado regulado deve falar DLMS/COSEM nativo. Para um fabricante de gateway IoT, suportar esse combo out-of-the-box cobre a maior parte do mercado regulado da região.

Por outro lado, no mercado não regulado (indústria, comércio, autoconsumo solar) ainda é comum encontrar medidores com Modbus TCP ou outros protocolos proprietários. Lá o gateway precisa ser bilíngue — um único dispositivo capaz de falar DLMS com um medidor e Modbus com outro, tudo enviado às Plataformas AMI pelo mesmo canal TCP.

Implementação prática

Para ver como este modelo se traduz em cabos e configuração de campo — pinout RS485, velocidade serial padrão, autenticação LLS vs HLS por medidor, comandos do app — consulte o guia complementar ao final do artigo.